sábado, 9 de junho de 2007

A propósito de flores

Um poema de Pedro Tamen:

Amendoeira

Entra no algodão terroso.
Depois
sobe devagarinho, mal se vê,
em muda aspiração ao algodão azul.

Persiste sem saber
que nunca atingirá
o mar da macieza.
Insiste pelos meses,
cega pelos ventos, pelo ouro
que purifica o céu.

Então,
sem desistir,
um dia,
não se resigna e explode
branca de alegria.


in "Analogia e Dedos", Oceanos, Lisboa, 2006.

APR

16 comentários:

Anónimo disse...

Pelo lindo poema.
Inverno de Antonio Cicero


No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir

de lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial.

Há algo que jamais se esclareceu:
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo o leão que sempre cavalguei?

Lá mesmo esqueci
que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudades, sem remorsos, só
sem amarras, barco embriagado ao mar

Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar

Anónimo disse...

Um poema de Eugénio de Andrade:

"EXERCICIOS COM VOGAIS

Muito haveria a dizer do confronto da mão com o sol. Da semente com a terra. Há contudo um lugar onde a paixão se esconde para explodir : o olhar. (...) a luz fascina, chego ao fim de rastos."

Eugénio de Andrade, in " As mãos e os frutos",Circulo de Leitores, 1987

MJH disse...

Como as palavras podem ser leves... Muito bonito.

Anónimo disse...

Da semente ao fruto?
Não.
Da semente (por enquanto) à alegria!

Da macieza da terra, "cega", ergue-se para o azul do céu.

Sim há dias às vezes ( talvez)
tristes


Sim há dias de Festa de "azul" e "ouro"
na explosão maravilhosa
"branca de alegria"!

Anónimo disse...

Parafrase à l’envers


AMENDOEIRA = DESEJO

Semente cega
muda
persiste sem saber
sem desistir nunca
sobe devagarinho.

Um dia
ha dias às vezes tristes
se resigna
e explode branca.

De alegria?

Anónimo disse...

Parafrases

Flor da amendoeira

Leito branco
morada precaria
da Vida
alegria breve.

Anónimo disse...

"Amendoeira" de Pedro Tamem
reune-nos na alegria/desejo do poema...

sim ha dias

às vezes tristes

sim às vezes

às vezes

outros

" um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois "
no Inverno de Cicero
e aqui também...


so às vezes!

Anónimo disse...

"Abrir a porta" ao poema-espaço de convivialidade:

"durante um minuto permaneceremos descorcertadamente juntos/perguntas a ti mesmo em que lingua has-de falar..."1

O poema sai do Mundo levado pela mão de APR que o quis "guardar".
E "durante um minuto" o poema é espaço-texto onde a flor-desejo da "amendoeira" de Pedro Tamem explode, na convialidade "branca de alegria", o tempo de se abrir ao Mundo!

1) Eunice de Souza

Anónimo disse...

Precaridade da Festa de qualquer Festa...

"Inverno

'...) Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar..."

Antonio Cicero

ou

"Les anges au Ciel
les créatures par terre"

Mas ha dias em que
"o céu
reuniu-se à terra um instante"
e ai é a Festa e
"La Terre est bleue comme une orange.." de Eluard

Parabéns ao EdM pela Festa que agora é a do Teatro, do Jardim, da Musica. Festa também da poesia na beleza das flores, dos panos, das cores, das pessoas no Jardim...
Esperemos que as flores do jardim dêem frutos, pode ser ...

Anónimo disse...

Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.

so às vezes!
outras vezes...

Anónimo disse...

"enrubesce"?

Anónimo disse...

é,
andam faunos pelo bosque...
e dai?

os "l'après-midi"
incomodam, a quem?

Anónimo disse...

Aprender a ver...

"(...) e se aprendermos a ver, com os que sabem olhar através da espessa camada da vulgaridade quotidiana, a maravilha do que é justo e simples..."

excerto retirado da intervenção do historiador José Mattoso na Entrega do Prémio da Latinidade «Troféu Latino»

Anónimo disse...

sub-repticiamente, sempre em jogo a afirmação do amor, de Eros, da matéria sensível do(s)mundo(s). Trata-se de poemas de grande intensidade e carga visual:“Amendoeira”: forma de vida anónima que anonimamente se processa e “então,/sem desistir, um dia,/ não se resigna e explode/ branca de alegria.”
“Analogia e Dedos” é um livro muito belo, é um livro cruel e pungente.

Anónimo disse...

Sim,
é agradavel constatar que a poesia convoca. Por ela se aproximam do EdM!

Anónimo disse...

Que explosão provocou a « Amendoeira" de Pedro Tamen...

Portugal pais de Poetas ?

Sophia disse um dia, ao agradecer um prémio que distinguia a sua poesia, que sim, porque a Poesia era uma arte barata, e Portugal, Pais pobre, sem recursos, procurava-os do lado da alma.
J Mattoso, diz quase a mesma coisa no discurso pronunciado na entrega do Pémio da Latinidade «Troféu Latino»: "Embora tantas vezes dominado por uma aristocracia que invocava ideologias cruzadísticas, nem por isso deixou nunca, a nível popular, de praticar a convivência cultural e religiosa, e de promover a circulação de ideias e das trocas comerciais. Exportou-o, mesmo, para fora da Europa, na medida em que alargou ao resto do mundo a troca de costumes, produtos, formas decorativas, ideias, vestuários, técnicas e palavras de que se alimentou o fecundo diálogo entre o Ocidente e o Oriente. Aí se manteve, até, em certas comunidades de intérpretes e comerciantes que continuaram a servir de intermediários e que, por meio dos seus crioulos, demonstraram a importância da língua como veículo de comunicação. »
V. texto completo no site Instituto Camões:
www.instituto-camoes.pt