quinta-feira, 14 de junho de 2007

El-Hakawati

«Com cerca de 45 séculos – muito anterior à "Ilíada" e ao "Mahabharata" – a epopeia de Gilgamesh, descoberta em quadros de argila na região onde hoje fica o Iraque, foi a primeira obra literária conhecida que, pela sua extensão, força, fôlego, visão e tom, eminência e universalidade de discurso, conferiu uma fama milenar a toda a zona do Médio Oriente na antiguidade. Depois de, em 1998, a epopeia de Gilgamesh ter sido contada em Bruxelas com quinze artistas, e depois em 2003, em Paris, com vinte e cinco outros, é graças à reunião de dois velhos amigos (Amer Khalil e François Abou Salem) que este texto-puzzle de cinco mil anos produz finalmente a sua mais inventiva e relevante performance. Tudo o que era supérfluo desapareceu e o ornamento foi-se. Libertada a representação de todos os "efeitos" espectaculares, a verdade desta amizade surpreendente, nascida na rivalidade, forjada nos perigos, florescendo com as proezas comuns, e acabando dolorosamente com a morte, tornou-se finalmente tangível: a amizade entre Gilgamesh e Enkidou, os dois heróis da epopeia, e também como eco, a amizade dos nossos dois companheiros de palco.»

Está tudo preparado para Gilgamesh 3, pela companhia de teatro palestiniana El-Hakawati: hoje, amanhã e sábado, às 21h30, na Sala Polivalente do CAMJAP. O espectáculo é falado em árabe com legendas em português.

3 comentários:

Anónimo disse...

"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."

Clarice Lispector

Estado do Mundo lido na Hora da Estrela - Exposição no Museu da Língua Portuguesa, São Paulo

Com pena por não ter acompanhado esta semana in loco o Fórum, é bom poder ver como tudo
tem corrido de forma tão bela.

Parabéns!!!

mjh disse...

Num dia o teatro Nhô, vindo do Japão: o requinte, a medida, o estudo, a repetição, o ouro, o luxo, a precisão do canto, dos passos, do cenário, do traje.

Num outro dia Gilgamesh, da Palestina: a profusão, a improvisação, a pobreza dos
materiais, a mistura das gerações, das histórias, dos sonhos, do passado e do presente.

Dois mundos que se revelaram nos textos mas sobretudo na forma como abordaram esses textos. Perfeito!

xavier disse...

Perfeito como:

... Então estendeu a mão e comeu um figo ...

Roland Barthes, "Primeiro Texto" traduçao de José Augusto Seabra, in "Barthes Discurso-Escrita Texto", Edições Espaço,1979, pp 14