
O filme que fez com que mais de uma centena de pessoas tivesse saído do Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian ontem, sábado, às 2h da manhã, depois de 4 horas de cinema, é obviamente um filme de culto: Potosí, Le Temps du Voyage, de Ron Havillo, estreado em 2007 mas realizado em duas partes (em 1970, e de 1999 a 2006). O filme é – pode dizer-se - uma saga moderna sobre uma família freak "on the road". Mas, ao longo destas 4 horas, aquilo a que assistimos é às atribulações e conflitos no seio de uma família, muito em consequência de um patriarca que conjuga autoritarismo com nostalgia. Por outro lado, a par de mostrar uma família na nudez de conflitos e emoções que qualquer viagem longa provoca, o filme mostra também uma parte do mundo que choca pela pobreza, pelo desconsolo e abandono a que estão sujeitas as gentes de Potosí em pleno século XX. E de um modo invulgar dá a estas gentes um tempo de olhar, dá-lhes voz, dá-lhes o rosto e elege-os em fotografias de uma beleza assombrosa, ligando o presente ao seu passado. É um filme sobre a relação da(s) vida(s) com a arte.
APR
domingo, 3 de junho de 2007
Vida e Arte
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segunda-feira, 28 de maio de 2007
Spider Lilies
Amanhã, às 21h30, na Sala Polivalente do CAMJAP:
No Youtube encontram-se outros excertos de Spider Lilies (2007), da realizadora Zero Chou (Taiwan).
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1963
Sobre La Rabbia, de Pier Paolo Pasolini:
Sim, um filme datado e no entanto, como foi possível que aqueles horrores tivessem acontecido. Sim, um filme de crença, ingénua, naïf, também ela datada sobre o comunismo e o fim das classes. E contudo algo de novo aconteceu, ou como ele dizia, referindo-se às independências: "Há um novo problema no mundo, chama-se cor".
Um filme-grito-doce-de-crença. Mesmo datado ou talvez por isso era importante que houvesse para os dias de hoje outros "Pasolini", poetas-realizadores.
APR
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sábado, 26 de maio de 2007
O cinema é parte do mundo
Ainda sobre Stories from the North, um texto de André Dias:
Não é certo que a iniciação de um realizador se faça a partir da sua solidão acompanhada de câmara. Embora a amplitude da expressão cinematográfica passe igualmente pela experiência que cada um faz, nem que seja por uma vez, do acto de fazer um filme (e não apenas pelas obras maiores dos maiores cineastas). Para que alguém se possa confrontar à matéria cinematográfica de modo a vincular-se a ela, a encontrar nela vocação e trabalho, é essencial que seja bem limitada a quantidade de elementos com que tem de lidar. Por fundamental que seja a multiplicidade a enfrentar, importa que esta não seja aterradora, que permita um entendimento dos elementos. Um pouco, no fundo, como no malabarismo. Demasiados objectos cinematográficos no ar, não sujeitos à composição, acabam por cair no chão.
Esta série de pequenos filmes em torno da vida numa região rural do norte da Tailândia que constitui o filme ‘Reanglao jak meangnue / Stories from the North’ (2006) de Uruphong Raksasad começa precisamente por figurar essoutra multiplicidade demente que a grande cidade impõem e que podemos supor impeditiva do gesto que o realizador deseja. Não admira então que se tratem de esboços cinematográficos oriundos do país longínquo, tantas vezes imaginário, das memórias de infância campestre. É desse ambiente altamente controlado e reduzido, carregado também de uma sentimentalidade já presente e a estirpar, que o realizador tem de arrancar o seu esforço de composição. Assim, este conjunto de pequenos retratos de existências campestres, marcadas em geral pela solidão, tédio e pobreza, corresponde antes de mais ao próprio gesto cinematográfico de Uruphong Raksasad, que dá a entender ter procurado fugir da indústria cinematográfica tailandesa em prol de um cinema mais pequeno. Mesmo que o realizador o afirme, não é evidente que haja neste filme uma qualquer apologia da bucólica vida campestre que exceda as condições do próprio gesto cinematográfico. Precisamente, o contraste entre a calma da vida campestre e o rebuliço de tom citadino aparece quando a expressão cinematográfica é, por assim dizer, mais desajeitada. Quando, por incapacidade, se deixa figurar a intenção: La volonté, mort de l'Art (Michaux).
O realizador Uruphong Raksasad tinha, segundo creio, experiência de montagem e pós-produção prévia à feitura deste seu primeiro filme. Encontramos um bom virtuosismo de montagem em alguns dos episódios, embora nem sempre acompanhado pelos movimentos de câmara ou enquadramentos, que, apesar da reserva geral, se deixam cair uma vez ou outra na tentação de enfatizar. Como superior exemplo desse virtuosismo libertador da montagem, no episódio dedicado a um músico e ao seu duplo, a contraposição sucessiva entre este a tocar na solidão da sua cabana à noite, num preto e branco rugoso, e a sua sombra quieta e silenciosa, a cores. Ou a abstracção do episódio das crianças que quietas de noite contam estórias de meter medo em contraponto à lua. São de momentos assim simples, que se pressente serem ao mesmo tempo altamente encenados, que nasce muitas vezes o encanto dos episódios ou das personagens deste filme, e menos de uma qualquer veracidade documental contemplativa.
É sempre demasiado simplista interpretar o documentário como a acção cinematográfica estritamente não-interventiva. Parece-me muito salutar que o espectador se pergunte como foi a câmara parar aquele lugar e momento preciso, que sentido milagroso de oportunidade levou o realizador aquela presença cinematográfica. A consciência da complexidade e ambiguidade inerente à feitura dos filmes não tem de obstar à sua fruição, pelo contrário. Se assim fosse, seríamos tentados a perseguir as ingenuidades do espectador como alvo de denúncia. Não é o caso. Obviamente que os híbridos cinematográficos entre a ficção e o documentário não são apenas interessantes porque jogam com as expectativas do público em relação ao género, mas sobretudo porque libertam novos procedimentos que vêm arejar a expressão cinematográfica. Pede-se a uma pessoa qualquer que se está filmar que repita uma acção. Encena-se o mundo sem código interpretativos demasiado rígidos. Promove-se uma confusão criadora e só secundariamente se confundem os registos.
No mais espantoso destes pequenos filmes – ‘The way / O caminho’ (de 2005, que terá passado em Vila do Conde), começamos por entrever, na escuridão da penumbra do anoitecer, a berrante t-shirt cor-de-rosa de um miúdo. Aquele corpo atravessa aos saltos um verde e cerrado canavial que tem mais do que a altura de um homem. Aos poucos reconhecemos que o miúdo à nossa frente é carregado às cavalitas por alguém (talvez o pai) vestido de escuro (propositadamente?) que assegura conhecer o caminho e nos indica o seu fim prestes. A câmara segue dificilmente a travessia, perdendo de vez em quando os que segue, por também ela enfrentar as dificuldades que as canas e demais vegetação oferecem, obrigando a cortes bruscos na montagem e estranhas suspensões do som ao silêncio, que dão à rapidez e dureza da travessia a sua justa e áspera expressão cinematográfica. Por fim vislumbra-se o fim do caminho, a saída do canavial, e o miúdo pode na terra retomar o caminho dos seus pés. E é a ele que a câmara segue.
O cinema é parte do mundo, não espelho dele ou seu representante. Por isso o cinema não se permite o tráfico de ideias “temáticas”. Estas rapidamente se desvanecem por não consolidadas, por serem afinal partes não necessárias da composição cinematográfica, meros excedentes. O “estado” a que o mundo se presta num filme como ‘Reanglao jak meangnue / Stories from the North’ é mais o de uma irredutibilidade de uma aceite solidão existencial, que corresponde à do gesto criativo, do que o de uma qualquer nostalgia por uma comunhão idealizada com a natureza. Não há, à partida, e por muito que isso nos custe, mais autenticidade na solidão, tédio e pobreza do campo que deixámos do que na solidão, tédio e pobreza da cidade a que estamos confinados.
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sexta-feira, 25 de maio de 2007
Histórias do Norte da Tailândia

Um filme de Uruphong Raksasad
«Acho que um artista, e a sua arte, deve fazer alguma coisa à sociedade em que vive», diz Uruphong. «Acho que os meus filmes podem, pelo menos, relembrar que podemos viver a nossa vida a um ritmo mais calmo. Podemos fazer uma pausa, olhar para trás, e ver se o nosso bilhete, somente de ida para a ‘modernidade’, é a única forma de existência. Talvez os meus filmes possam sugerir que há outros rumos que devem ser considerados no nosso esforço de desenvolvimento – ganhámos muito nos últimos 20 anos, mas vale a pena por tudo aquilo que sacrificámos? As pessoas do campo conhecem a felicidade. Viveram-na. Mas a pressão da sociedade dominante é tão grande que estão convencidos que podem deixar para trás o que tinham e partir em busca de algo diferente.» in CRITICINE
Depois do filme de ontem, Stories from the North, o ciclo de cinema continua hoje com Fallen, da realizadora austríaca Barbara Albert, às 21h30, na Sala Polivalente do CAMJAP.
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quinta-feira, 24 de maio de 2007
Quei loro incontri (Ces rencontres avec eux)

Legendagem portuguesa:
Não te perguntaste
porque é que um instante,
semelhante a tantos outros passados,
te tornou de repente feliz
feliz como um deus?
Olhavas a oliveira,
a oliveira na vereda
que percorreste todos os dias
durante anos e chega o dia
em que o tédio te deixa,
e acaricias o velho tronco com o olhar,
quase como se fosse um amigo reencontrado
que te dissesse gentilmente a única palavra
que o teu coração esperava.
Outras vezes,
foi o olhar de um qualquer viandante.
Outras, a chuva
intermitente durante dias.
Ou o grito ruidoso de um pássaro.
Ou uma nuvem
que dirias já ter visto.
Por um instante,
o tempo pára e a coisa banal
sente-la no coração
como se o antes e o depois
já não existissem.
Não te perguntaste porquê?
Ainda Não Começámos a Pensar
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Dias Felizes
Ecos da obra de Cesare Pavese: aqui, aqui e aqui.
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quarta-feira, 23 de maio de 2007
Hoje, no Grande Auditório, às 21h30
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segunda-feira, 21 de maio de 2007
Woman on the beach

Ontem, no Grande Auditório
Filme repleto de sinais, filme constelação com um núcleo denso e à beira de explodir em cada cena. Nesse pequeno núcleo constituído pelo triângulo está lá tudo sobre a sexualidade contemporânea e, de uma forma está centrípeta. Repare-se que não há praticamente outras personagens? Mesmo se o filme se passa numa estação de veraneio? Este triângulo "dispara" energia em todas as direcções e alguma provoca o ricochete, ou o sentimento de abandono se lhe quisermos dar um nome justo. Na sua enorme estranheza e densidade psicológica, o filme poderia evocar Bergman. Hong Sang-soo, um Bergman coreano do século XXI?
APR
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sábado, 19 de maio de 2007
Sobre o filme de Zhang Lu

Ainda as emoções e os sentimentos:
Crença na possibilidade de transformar o deserto numa floresta e constatação dos sentimentos e das emoções na possibilidade da interculturalidade. Será a adopção um instrumento da ética?
APR
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terça-feira, 15 de maio de 2007
Desert Dream
Para dar início ao ciclo de cinema TODO O MUNDO É UM FILME, que decorre entre 18 Maio e 2 Junho, o programador Jacob Wong escolheu "Desert Dream", terceira longa metragem de Zhang Lu, o realizador chinês cujo filme "Grain in Ear" foi premiado na edição de 2006 do Indielisboa.
No site Chinacinema.fr diz-se que a abordagem cinematográfica de Zhang Lu, formado em Literatura Chinesa, se aproxima da dos cineastas Jia Zhang-ke ou Hou Hsiao-hsien. "Desert Dream" faz-se de longas panorâmicas da estepe mongol e da luta de um homem que planta deseperadamente árvores para travar a desertificação acelerada. A ele juntam-se uma refugiada norte-coreana e o seu filho.
Depois da presença na selecção oficial da Berlinale, em Fevereiro deste ano, "Desert Dream" será apresentado dia 18 de Maio, sexta-feira, às 22h, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. O preço dos bilhetes é de 2,5€.
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Ciclo de cinema
Programa:
DESERT DREAM, real. Zhang Lu, co-produção Coreia/Mongólia/França, 2006, 123’
18 de Maio, sexta-feira, 22h
Grande Auditório
THE HOSTAGE, real. Laila Pakalnina, Letónia, 2006, 74’
19 de Maio, sábado, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
WOMAN ON THE BEACH, real. Hong Sang-soo, Coreia do Sul, 2006, 127’
20 de Maio, domingo, 21h30
Grande Auditório
WAR AND PEACE, real. Anand Patwardhan, Índia, 2002, 148’
22 de Maio, terça-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
CES RENCONTRES AVEC EUX, real. Jean-Marie Straub e Danièle Huillet, França, 2006, 68’
23 de Maio, quarta-feira, 21h30
Grande Auditório
STORIES FROM THE NORTH, real. Uruphong Raksasad, Tailândia, 2006, 88’
24 de Maio, quinta-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
FALLEN, real. Barbara Albert, Áustria, 2006, 88’
25 de Maio, sexta-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
INDIO NACIONAL, real. Raya Martin, Filipinas, 2006, 96’
26 de Maio, sábado, 21h30
Grande Auditório
LA RABBIA, real. Pier Paolo Pasolini, Itália, 1963, 53’
27 de Maio, domingo, 21h30
Grande Auditório
SPIDER LILIES, real. Zero Chou, Taiwan, 2007, 98’
29 de Maio, terça-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
THE BRIDGE, real. Eric Steel, EUA, 2006, 93’
30 de Maio, quarta-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
ROUTE 225, real. Yoshihiro Nakamura, Japão, 2005, 101’
31 de Maio, quinta-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
TACHIGUISHI RETSUDEN, real. Oshii Mamoru, Japão, 2006, 104’
1 de Junho, sexta-feira, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
POTOSI, LE TEMPS DU VOYAGE, real. Ron Havilio, co-produção Israel/França, 2007, 246’
2 de Junho, sábado, 21h30
Sala Polivalente do CAMJAP
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